Santos monitora redes sociais para demitir funcionários e intimidar críticos

Documentos mostram que o clube paga R$ 80.420,00 por mês a duas empresas de comunicação e a um escritório de advocacia criminal para mapear sentimento nas redes e agir contra opositores às vésperas da eleição de dezembro

Henrique Farinha e Rodolfo Gomes

Em 8 de abril de 2026, o Diário do Peixe publicou uma reportagem revelando a contratação, pelo Santos, de uma empresa para cuidar das redes sociais do clube — mesmo já contando com equipe própria de postagens — e, como “bônus”, das redes pessoais do presidente Marcelo Teixeira. A reportagem completa, com todos os detalhes do contrato, pode ser lida aqui.

Mas a história não para por aí. Uma nova análise dos contratos do clube com empresas de comunicação e assessoria jurídica escancara um padrão: o monitoramento das redes sociais tem sido usado como ferramenta para identificar e neutralizar críticos, dentro e fora do departamento de futebol.

O monitoramento das redes

Um dos contratos é com a End To End, que recebe R$ 43.820,00 mensais do Santos até 31/12/2026. Nos incisos “c” e “d” da Cláusula 1.III do contrato, constam os seguintes serviços:

  • aconselhamento em situações de crise de imagem, com plano de contenção, recomendação de pronunciamentos, notas e respostas;
  • relatórios mensais com análise de sentimento, riscos e oportunidades.

Ou seja: a empresa avalia o clima nas redes sociais e recomenda posicionamentos oficiais — embora, segundo o contrato, não tome decisões por conta própria.

Há ainda a Press FC, que presta serviço semelhante ao São Paulo e pertence a Fernando Mello, vice-presidente de marketing da Federação Paulista de Futebol. O contrato com o Santos foi assinado em 3 de dezembro de 2024, é válido até 31/12/2026 e custa R$ 30.000,00 mensais — referentes ao pacote “Platinum”, que inclui planejamento de comunicação completo e media training. O documento foi fornecido pelo próprio Fernando Mello.

Entre os itens previstos está um serviço comum nesse tipo de contratação: a “detecção de profissionais com predisposição de ataque à empresa”. Em tese, o objetivo é subsidiar estratégias de comunicação e, eventualmente, gestões de crise — mas, mais uma vez, a decisão final sobre o que fazer com essa informação cabe ao clube.

Um criminalista de plantão

Em 2 de março de 2026, o Santos também contratou o escritório de Octavio Rolim, advogado criminalista e amigo de Marcelinho Teixeira, visto com frequência em viagens do clube — como a que levou a delegação ao confronto com o Recoleta, no Paraguai. O contrato vale até 31/12/2026, soma R$ 60.000,00 dividido em parcelas mensais e eleva para R$ 80.420,00 o gasto mensal total do clube com esse conjunto de prestadores.

É incomum um clube manter um advogado criminalista como prestador fixo. Esse tipo de assessoria costuma ser buscada pontualmente, diante de processos específicos da área. Não faz sentido pagar por ela se não houver necessidade imediata. A contratação sugere a intenção de acompanhar de perto os “inimigos” — e, mais do que isso, agir. E é exatamente o que parece estar acontecendo.

Ameaças e demissões

Vários jornalistas e produtores de conteúdo já foram notificados extrajudicialmente ao longo do tempo pelo clube em tom de intimidação, algo que os autores desta coluna enfrentaram, enquanto críticos à gestão sempre foram alvos de ataques nas redes por perfis “parceiros” – especialmente a turma do “faz o M” – ou bots. Nas últimas semanas, porém, com a melhora do desempenho em campo, o “estado de beligerância” escalou.

Além de novas ameaças veladas e tentativas de intimidação a produtores de conteúdo, jornalistas – vide o relato de Alexandre Praetzel sobre ligação de Marcelo Teixeira a ele – e ao candidato de oposição Ivan Luduvice, que fez postagem a respeito, vieram a público — por meio do jornalista Lucas Musetti — cinco demissões de funcionários do clube e uma punição interna ao jovem Yekominan Coulibaly, promessa da base. O motivo, em todos os casos: curtirem uma publicação de José Renato Quaresma, ex-integrante da gestão e hoje candidato de oposição. Ele inclusive publicou postagem sobre o que um dos demitidos lhe disse. Ao mesmo tempo, aliados reapareceram após longo inverno nas redes para atacarem os perfis tidos como “inimigos”.

Essas ações da gestão só são possíveis porque as redes sociais são monitoradas e as informações chegam a quem decide. Não há outra hipótese. A eliminação traumática na Copa Sul-Americana provavelmente mudará planos, pois o campo não deu os argumentos populistas comumente utilizados por dirigentes para ocultar o que acontece fora dele.

Um clima de “nós contra eles”

A poucos meses da eleição de dezembro, parece haver um interesse deliberado em criar um clima de confronto entre a gestão e seus críticos.

É um roteiro conhecido, visto em outras esferas, e que não contribui para o debate construtivo e democrático que deveria nortear a escolha dos sócios pela melhor alternativa nas urnas. Que é o que se deseja e se espera.



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